A importância das Avós na cultura Huni Kuin

“Segundo o ensinamento que nosso povo traz, a gente vem do amor, tudo começa a partir do amor. Quando a gente nasce somos cuidados pelas nossas mães, pelas nossas avós. E depois de um certo tempo que o nosso corpo e o nosso pensamento vão crescendo, que começamos a ter interesse pela vida e pelo mundo, fazemos a transformação que na nossa aldeia é o rito de passagem. É quando a gente começa a conhecer a nós mesmos. Nesse rito de passagem a gente conhece não somente o lado material, mas o lado espiritual. Esse rito de passagem é muito importante dentro da minha cultura. Existe há muito tempo e ainda hoje está vivo. São dois dias de dança e sete dias deitado na rede sem comida e sem água, aos cuidados da nossa mãe e avôs. Assim começamos a dar valor à vida, não só a vida do ser humano, mas a vida que existe nesse planeta. Em primeiro lugar, a gente conhece a nós mesmos. Em segundo lugar, conhece o que nosso corpo necessita. Lembro que quando fiz o meu rito de passagem, o mais forte foi ficar sete dias sem água. Foi como se eu não existisse, como se virasse um espírito. Quando terminei meu rito, vi o quanto é importante a água, uma comida, um conselho da avó – que sem ele não se consegue fazer essa dieta.

Fazemos isso com todo cuidado para conhecer qual a nossa verdadeira missão. Nossa missão vem do amor – nossos pais com amor fizeram a gente. Quem descobre isso vive muito tempo, sofre menos e tudo o que faz dá certo.

Com esse rito de passagem meus avós criaram dentro de mim uma raiz da nossa cultura. Eles falaram da importância da nossa identidade, da nossa língua, do nosso valor. Compreendendo esse valor, compreendemos o valor da cultura dos outros povos. Hoje estou feliz porque sei que meus antepassados lutaram muito para que todos fossem felizes, saudáveis e respeitassem todas as formas de existir em nosso planeta. Por isso, dou graças à minha avó. Nunca senti tanta falta da minha avó como nesses dias. Estou conectado com ela. Os jovens de meu povo Huni Kuin estão ampliando a consciência, conhecendo mais a diversidade, aprendendo uns com os outros, para levarmos algo bom para nossa família.”